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One step ahead

Um passo a frente – Jornalista defende progresso obtido nas negociações da COP-15

Brazil
O Globo
28/09/2010
Renato Grandelle

Frustração e fracasso são palavras comumente associadas à Conferência do Clima (COP-15) realizada na Dinamarca, no ano passado. O jornalista, cientista político e blogueiro Sérgio Abranches discorda. O autor do livro "Copenhague - antes e depois" (Ed. Civilização Brasileira) aterrissou na Europa ciente de que a convenção renderia muito mais do que tuitadas e comentários radiofônicos. Algumas de suas previsões se confirmaram: houve avanços, embora tímidos nas negociações políticas. Mas a trama se desenrolou de uma forma menos acadêmica do que qualquer um poderia ter imaginado. Na entrevista a seguir, ele lembra as conquistas e desventuras da COP-15 - as conspirações e o disse-me-disse entre blocos de países - e antecipa o que podemos esperar da COP-16, em Cancún.

O GLOBO: A Conferência do Clima de Copenhague (COP-15) terminou sem um acordo concreto entre os principais líderes globais, gerando uma grande frustração entre ambientalistas e a comunidade científica. É justo considerar o encontro um fracasso?

SÉRGIO ABRANCHES: Não. Na verdade, esta noção nasceu do excesso de expectativa. Não fui para lá esperando um grande acordo. Há uma certa dificuldade generalizada de compreender como é o processo político. Mesmo os militantes, que costumam acompanhar tudo de perto, acham que as decisões são voluntaristas. Não existe vontade política, como eles acreditam. Dependemos, sim, de condições objetivas. O que esperava de Copenhague aconteceu - não da maneira que pensava, claro. Imaginava que Copenhague seria o momento em que faríamos um avanço político significativo, embora ainda aquém das necessidades técnicas e científicas para uma política real e global de redução do risco de mudança climática excessiva. E isso aconteceu. É muito difícil explicar para as pessoas que a grande mudança, na política, se dá quando você para de dizer "não" e passa a dizer "sim. É um enorme esforço. Envolve mudanças na correlação de forças na sociedade, na dinâmica de interesses, na visão da economia. Aí a conversa entra em outro patamar: já que aceitamos fazer algo relacionado às mudanças climáticas, quanto gastaremos, quem e como fará e com que rapidez? Essas são decisões novas, que vão além do dizer "sim". O que vimos em Copenhague é que os países colocaram na mesa o que estavam dispostos a fazer. Daqui para frente, vamos começar a negociar as condições efetivas para a política. Isso deixa os cientistas e os militantes inquietos, porque o ritmo da política não corresponde ao deles.

O GLOBO: Logo no começo da convenção, ficou clara a diferença entre os países do G-77, o bloco dos países em desenvolvimento. É possível manter coeso um grupo tão díspare?

ABRANCHES: Não. Na discussão sobre o clima, o G-77 acabou. Nem o nome do grupo é mais verdadeiro. São 130 países, os mais diferentes possíveis. E essa divergência ficou muito clara em Copenhague. Numa discussão sobre mudança climática, não há como conciliar os interesses de seus integrantes, que incluem produtores de petróleo; o Basic (formado por Brasil, África do Sul, Índia e China), os pequenos Estados-ilha, que vão submergir com a elevação do nível do mar; e os africanos, que vão aquecer em mais de 4 graus Celsius. Uns produzem petróleo. Os menos desenvolvidos e as ilhas nada emitem. Já vimos nas reuniões preparatórias para a COP-16 que são esses blocos que estão efetivamente agindo.

O GLOBO: Mas, recentemente, em reunião no Rio, o Basic anunciou que convidará países do G-77 para participarem de suas reuniões. Sua intenção, com esta medida, é manter a liderança do bloco?

ABRANCHES: Esse gesto tem a ver com a quebra de confiança que houve em Copenhague. Há um esforço muito grande dos países do Basic para tentar restaurar a confiança no processo de negociação sobre mudança climática. Um dos episódios mais marcantes da COP-15 foi o vazamento de um documento que o governo dinamarquês havia negociado com um grupo pequeno de países, o que soou para a maioria como uma traição e dificultou o debate. Ao mesmo tempo, por trás desse véu de desconfiança, o Basic se constituiu como um interlocutor muito poderoso. Ele se diferenciou dos outros países do G-77. Isso criou estranhamentos, por exemplo, para a África do Sul dentro da União Africana, já que ela também compõe o Basic.

O GLOBO: Ao receber outros países em suas reuniões, o Basic abre mão de sua identidade?

ABRANCHES: Não, porque as reuniões continuam sendo deste bloco, e não do G-77. O Basic está criando uma identidade própria. Seu objetivo é fazer os países em desenvolvimento entenderem que o Basic não assinaria um acordo que fosse lesivo a eles. E há também um esforço, sobretudo por parte do Brasil, para quebrar a resistência dos países bolivarianos, como Venezuela, Cuba, Bolívia e Nicarágua, que, na última reunião preparatória, finalmente aceitaram o texto do Acordo de Copenhague, após bloqueá-lo durante a conferência.

O GLOBO: Existe uma demanda para que o Basic aceite outros membros? ABRANCHES: Sim. Seria a formação do Basic Plus. Honduras, por exemplo, pleiteou uma vaga, mas essa proposta não foi para frente.

O GLOBO: Durante a COP-15, não faltaram condenações aos anfitriões do encontro. Lars Rasmussen, o primeiro-ministro dinamarquês, foi acusado de tentar firmar um acordo ouvindo apenas EUA e China. Sua ministra da Energia, Connie Hedegaard, não conseguiu evitar a paralisação da plenária em momentos importantes. São críticas válidas?

ABRANCHES: Sim. A Connie, no fim da conferência, acabou conseguindo demonstrar mais jogo de cintura do que se esperava. Tanto assim que hoje ela é comissária para Mudança Climática da União Europeia. O problema é que ela sofria um constrangimento duplo em Copenhague. Por um lado, o fato de Rasmussen já estar negociando por fora, temeroso de que a COP-15 fosse um fracasso e isso explodisse o seu governo. Assim, ele a enfraquecia no papel de presidente da convenção. Além disso, como à COP se justapôs uma reunião de líderes mundiais, o encontro não poderia ser presidido por ela, porque Connie é ministra de governo, e não uma chefe de Estado. O Rasmussen, em algum momento, teria de assumir o comando da convenção. E ele se mostrou completamente incapaz de lidar com um conflito político internacional. Tinha uma certa esperteza, mas não a experiência e maturidade necessária para lidar com problemas daquela magnitude.

O GLOBO: Este vazio de liderança pode se repetir na COP-16, no México?

ABRANCHES: É difícil. O presidente mexicano, Felipe Calderón, estava atento a tudo. Parecia meio alheio às negociações, participava pouco. Mas ele já sabia que Copenhague desaguaria em Cancún. Calderón quer montar uma estratégia para que a COP-16 não acabe esvaziada. E já temos sinais de que aprendeu a lição. Ele tem feito reuniões informais com pequenos grupos de países e tem sido muito bem-sucedido. Estes encontros podem gerar um acordo.

O GLOBO: Houve críticas dos primeiros líderes europeus ao formato da Conferência do Clima: ou o acordo está totalmente fechado, ou qualquer item pode ser mudado. Além disso, um documento só poderia ser aprovado por unanimidade. Copenhague foi a falência deste modelo?

SÉRGIO ABRANCHES: É, de fato, um regulamento complicado. Várias agências da ONU usam a regra da unanimidade, que dá a todos os países o poder de veto. Veja o resultado: o Acordo de Copenhague, com 130 signatários, foi rejeitado por seis nações: Cuba, Sudão, Venezuela, Bolívia, Nicarágua e Tuvalu. É muito difícil contemplar todos os países e, por isso, fazer um bom acordo. Outra dificuldade é a regra do "nada estar fechado até tudo estar fechado". Não é uma regra constitucional como a unanimidade; na verdade, é mais um costume, criado para evitar decisões parciais. Mas agora está claro que, se não houver estes avanços parciais, não será possível caminhar. Podemos fechar determinadas partes do acordo, mesmo que elas só entrem em vigor até todo o documento estar concluído. É a forma de evitar que certas discussões sejam reabertas após já terem sido aceitas.

O GLOBO: O mundo dividiu-se entre culpar EUA e China pelo resultado da COP-15. Quem, afinal, foi o responsável por não termos conseguido um acordo mais abrangente?

SÉRGIO ABRANCHES: A culpa foi de muita gente. Certamente o primeiro-ministro da Dinamarca tem uma responsabilidade grave, porque a manobra que ele tentou fazer para salvar a cúpula em benefício próprio acabou envenenando todos os parceiros e criando uma crise de confiança, que terminou levando a um resultado mais modesto do que poderíamos ter obtido. Certamente o comportamento do primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, passou a ser muito negativo apesar de um episódio menor, um jantar que ele não foi por não ter sido convidado formalmente. Se fosse com o Lula, o Obama ou o Sarkozy, não teria havido esse impasse. Daí para frente, a China começou a criar problema. E o Obama também teve uma parcela de responsabilidade, por não ter ido um centímetro além das propostas que ele já havia anunciado. E até agora ele se mostrou incapaz sequer de fazer o Congresso aprovar esse mínimo. Por outro lado, Obama demonstrou uma enorme capacidade de negociação, paciência e obstinação para tentar resolver suas diferenças com a China numa reunião com o Basic nas últimas horas da conferência.

O GLOBO: Como o senhor avalia o comando da delegação brasileira?

SÉRGIO ABRANCHES: O Brasil teve um desempenho muito importante com o embaixador (Luiz Alberto) Figueiredo, caiu significativamente com a Dilma (Rousseff, então chefe da Casa Civil) e recuperou-se com a chegada do Lula, que demonstrou muito claramente sua liderança e estatura.

O GLOBO: O senhor chega a mencionar no livro que a primeira pergunta da ministra Dilma para a delegação foi sobre a agenda do governador José Serra e da senadora Marina Silva, que também estavam em Copenhague.

SÉRGIO ABRANCHES: A Dilma foi um desastre. Ela chegou só para atrapalhar. Não tinha intimidade com o tema, nenhuma liderança - nunca tinha participado de uma COP antes. Foi lá para fazer campanha. Criou uma dinâmica na delegação muito pouco produtiva. Durante o período em que ela dirigiu a delegação, o Brasil ficou com seu desempenho muito comprometido. Com o Lula, tudo mudou. Houve uma recuperação exuberante. No primeiro discurso, escrito por sua assessoria, ele foi muito fraco, burocrático. Mas, quando falou de improviso, com a emoção que ele sabe dar, foi o primeiro a sinalizar que havia um impasse muito sério. Fez apelos e concessões que a delegação brasileira não queria, como contribuir com dinheiro para o Fundo de Mudanças Climáticas.

O GLOBO: Em outro trecho, o senhor diz que Copenhague foi o encontro da política das nações com a do clima, e que "a ciência não chegou a ser borrada, mas entrou apenas de reboque. Esta situação já era previsível?

SÉRGIO ABRANCHES: Não, isso foi uma surpresa. Primeiramente porque, pouco antes da COP-15, houve o escândalo do roubo de e-mails do Centro de Pesquisa de East Anglia, na Inglaterra. Todo mundo imaginou que este episódio teria cumprido o seu objetivo, que era desacreditar a ciência do clima e murchar a conferência. Isso não aconteceu. Todos chegaram a Copenhague sabendo que a ciência era certa. Mas também se tinha a ideia de que as negociações levariam mais em conta a ciência do clima, para o bem ou para o mal. A COP-15 foi a discussão menos baseada na ciência do clima que já se teve. Foi o encontro da política global do clima com a política de cada uma das nações. Cada país levou até o limite dos seus interesses nacionais o quanto estava pronto para ceder.

O GLOBO: Esta divulgação de e-mails dos climatologistas não teve mesmo qualquer interferência nas negociações?

SÉRGIO ABRANCHES: Nos EUA, este escândalo, que ficou conhecido como Climategate, teve um efeito muito negativo. É até uma das razões para o Congresso de lá ainda não ter votado à legislação climática. Mas, em Copenhague e no resto do mundo, o abalo à ciência do clima foi muito menor.

O GLOBO: A COP-16, em Cancún, não tem gerado uma expectativa tão grande quanto sua antecessora. O que podemos esperar deste encontro?

SÉRGIO ABRANCHES: De fato, a conferência deste ano não tem provocado tanto frisson. Até estava com medo de que em Cancún houvesse uma certa desmobilização da sociedade civil, o que seria muito ruim, porque aí é que não andaríamos mesmo. Mas parece que o credenciamento de observadores dos setores das ONGs para a COP-16 está quase tão agitado quanto em Copenhague. Felizmente o movimento da sociedade civil não será esvaziado.

O GLOBO: Qual foi a importância dos protestos que tanto vimos em Copenhague?

SÉRGIO ABRANCHES: Vimos que o movimento ambientalista atingiu um nível de maturidade impressionante. Gente muito qualificada tecnicamente aliada a pessoas muito qualificadas em fazer barulho e pressão. Cada uma dessas ONGs conseguiu uma grande capacidade de ressonância em seus países, gerando uma mobilização impressionante. Todo mundo voltou para casa querendo fazer autocrítica e determinado a investir no plano doméstico. É como se pensassem:

não adianta só fazer pressão na COP porque todo mundo já chega lá com a cabeça feita. Isso é verdade, mas estes movimentos não podem ficar longe de Cancún. E, pelo o que tenho acompanhado, a mobilização no México será da mesma magnitude. O problema é que a parte paralela, das ONGs, ficará separada da negociação oficial. Será um evento menos democrático do que Copenhague, que juntou todos no Bella Center, embora no final a conferência tenha ficado mais restritiva. Afinal, haviam planejado um evento para 20 mil pessoas e acabaram recebendo mais de 40 mil.

O GLOBO: A grande luta mal–sucedida de Copenhague foi por um acordo legalmente vinculante. O único que existe atualmente é o Protocolo de Kyoto, rejeitado por alguns dos maiores emissores de gases–estufa do mundo, mas defendido pelos países em desenvolvimento. Como resolver esse impasse?

SÉRGIO ABRANCHES: Ao longo da conferência, a defesa de Kyoto foi diminuindo de intensidade, mesmo entre os países que são aliados fervorosos desse protocolo. Creio que Kyoto está morto. Houve uma evolução que o tornou irrelevante, porque ele representa cada vez menos emissões. Os EUA jamais entrarão em Kyoto. Brasil, China e Índia, tampouco (segundo o protocolo, esses países não são obrigados a cortar suas emissões). Em 2012, quando termina o primeiro período de compromisso do protocolo, ele já não representará a maioria das emissões mundiais. E aí ficará cada vez mais forte a idéia de termos outro instrumento legal que represente a totalidade das emissões. O próprio Acordo de Copenhague é o início dessa solução.

O GLOBO: Por quê?

SÉRGIO ABRANCHES: Copenhague é semelhante ao Protocolo de Kyoto, com a diferença que, agora, alguns países topam criar um portfólio de ações nacionais para reduzir suas emissões.

O GLOBO: Qual é o passo seguinte?

SÉRGIO ABRANCHES: Negociar como os países podem ajustar suas metas até nos atermos ao aumento máximo da temperatura em 2 graus Celsius. Também é preciso verificar se esta é realmente uma meta realista e suficiente, já que não há um consenso dentro da comunidade científica.

O GLOBO: Vamos conseguir estabelecer estas metas numéricas em Cancún?

SÉRGIO ABRANCHES: Não, nem assinaremos um documento legalmente vinculante. Vamos fechar alguns temas em Cancun, mas este acordo só virá em 2011, na reunião da África do Sul, ou na Rio+20, em 2012.

O GLOBO: O senhor foi para Copenhague pensando em escrever um livro?

SÉRGIO ABRANCHES: Sim, embora não este livro. Pensei em uma obra mais acadêmica, mas me dei conta de que algum cientista escreverá também. E acaba que o leitor com um certo nível de informação, mas que não é técnico, fica sem referências  para acompanhar as negociações relacionadas à mudança climática – e eu acho que esse é um processo em que todos devem se envolver. Em 2008, encontrei–me com repórteres que cobririam a COP-14 e percebi que um relato jornalístico das negociações poderia ser bem útil para mostrar os caminhos tortuosos de um evento como este. Também me surpreendi com outra história que já previa: Copenhague foi o momento em que o jornalismo efetivamente deixou de ter fronteiras, seja de mídias ou de plataforma.  Você via de repórter fazendo a matéria com um iPhone num tripé até uma equipe da CNN com toda aquela parafernália de equipamento profissional. Foi, também, o ano em que o Twitter explodiu. Todas essas observações foram mudando o livro. E houve aquele final inusitado, que, na verdade, cabe mais num romance de intriga diplomática do que num livro de análise: a saída à francesa dos chefes de Estado.

O GLOBO: Cancún também vai render um livro?

SÉRGIO ABRANCHES: Claro, mas não especificamente sobre a conferência. Prefiro escrever, agora, sobre o futuro das negociações do clima.

El contenido de las noticias que se presentan en esta sección es responsabilidad directa de las agencias emisoras de noticias y no necesariamente reflejan la posición del Gobierno de México en este u otros temas relacionados.

    

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